Marilyn Manson na revista Kerrang!
Manson: Desculpe a demora, mas acabei de receber um transplante de cérebro… Hei, seu nome não me é estranho. Nos conhecemos, não é verdade?
Entrevistador: Sim, te entrevistei várias vezes.
Ah sim, agora me lembro. Foi naquele clube noturno onde fizemos amor no banheiro. Fico feliz em voltar a falar contigo (risos).
Que horas são em Los Angeles?
Não sei, porque não há relógio em minha casa, mas acho que são duas ou três da manhã.
Está confortável com o mundo em que vive atualmente?
Neste momento estou na minha cama, estou ligando o umidificador e estou cercado por meus quadros e outros objetos, que nos olhos de um observador qualquer, transformaria o meu quarto num esconderijo de um assassino em série (risos). No geral, estou feliz por ter recuperado uma peça que faltava em minha vida, que é Twiggy, meu melhor amigo. Recuperei-lhe tanto na amizade, quanto no nível artístico. Por muitos anos eu tentei substituir esta peça perdida através de outros relacionamentos, e não estou referindo-me às relações sexuais ou íntimas, de fraternidade, ou daqueles que você só gasta o dobro da sua vida. Recuperar a sua amizade e poder gravar um álbum com ele, foi algo muito especial. Cara, não somos tão exultantes para começar a fazer yoga juntos e deixar as nossas barbas crescerem e planejar virarmos hippies (risos), mas estamos felizes porque temos um ao outro para o que sabemos fazer com as guitarras, os nossos pênis e as drogas. Acho que acabo de dá uma nova definição de felicidade (risos).
A nível emocional me encontro também numa nova fase porque nunca tinha morado sozinho. Depois de deixar a casa dos meus pais, fui morar com a minha banda (Twiggy foi o primeiro habitante) e eu vivia com várias das minhas namoradas. No entanto, desde novembro, vivo absolutamente sozinho pela primeira vez na minha vida e esta é, obviamente, uma grande mudança.
É dito que você está solteiro novamente, mudara sua resposta nesta entrevista de alguma maneira?
Deveria perguntar a menina que está do meu lado agora, mas acho que ela parou de respirar…
Siga suas próprias declarações. As guitarras neste álbum soam tão duras como o pênis duro de Twiggy. No entanto, tenho ouvido muitas músicas acústicas. Quão longo é o pênis de Twiggy?
(risos) Hoje em dia, ao nível de peso na guitarra, foram todos levados ao extremo, não se pode ir além. Em minha opinião, foi a banda Pantera quem criou a perfeita definição do que é som extremamente pesado. Já não se pode fazer musica mais pesada que a sua, então, agora só se pode brincar com os acordes, as cores, o sentimento e a melodia. Soar pesado não significa necessariamente soar o mais distorcido possível. A comparação que fiz com o pênis de Twiggy tem a ver com o fato de que, se você tem um pau pesado, mas solto, você tem que levantá-lo por toda parte, enquanto que com um pau duro você pode tremar (risos). As guitarras foram gravadas como modelos acústicos: um microfone, a guitarra e nada mais. Para a maioria das faixas, quis utilizar a mesma tonalidade de todos os instrumentos utilizados durante a gravação que Twiggy usou nos modelos, para respeitar este espírito cru e espontâneo.
Nós não buscamos a harmonia sonora e sim a rapidez. Por exemplo, a versão da faixa “I want to kill you like they do in the movies” no disco é de 9 minutos. Cantei essa faixa duas vezes na minha vida. A primeira vez foi o dia em que saiu na imprensa a minha separação com Rachel, onde ofereciam todos os detalhes. É óbvio que a minha forma de ultrapassar essa situação desagradável foi a de concentrar-me na minha arte. Havia tantas coisas entre nós que a primeira vez que gravei a música, ela terminou com 25 minutos. Obviamente que, não havia espaço no disco para uma música tão longa, mas eu não quero cortá-la, já que aquilo foi um reflexo fiel da torrente de emoções e palavras que saíram da minha boca: eu não tinha uma palavra na minha frente. Essa faixa tornou-se mais uma importante parte do disco e não queríamos mutilá-la. Quando terminamos o disco vimos o que sobrou para ver o que faríamos com a música. Disseram-me que havia espaço para uma música de no máximo nove minutos e, por isso, decidi voltar a cantá-la, mas o sentido claro que não era a mesma música, porque eu estava em um momento diferente da minha vida. Já não havia dor, nem vulnerabilidade, nem acrimônia e nem amargura. Ela foi gravada da mesma forma: sem usar overdubs ou Pro-Tools, nem retoques. Eu prometo que a versão de 25 minutos chegará à luz um dia, porque é o testemunho de um momento muito doloroso para mim.
Outra coisa que gostaria de destacar é que pela primeira vez eu deixei pessoas de fora da banda (amigos, namoradas, e alguns desconhecidos) assistir à gravação da minha voz, porque eu percebi que o que estava faltando era o sentimento de cantar na frente do público. Gosto de ser capaz de olhar para os olhos das pessoas para seduzi-las, provocá-las ou intimidá-las e claro, no quase asséptico ambiente de uma gravação isso não se pode ser feito. Minhas gravações no estúdio foram no escuro e eu estava deitado no chão, sem qualquer contato com nada.
Vejo que voltou a viver “La Vida Loca…”.
Você acaba de dizer “living La vida loca!”? (risos) Digamos que atualmente estou feliz por encontrar um ponto na minha vida que minhas prioridades mudaram. Isso é algo que pode acontecer com qualquer um e pode soar como algo normal, mas esse simples fato desempenhou um papel fundamental neste épico álbum. Comecei a escrever letras e cantá-las quase que simultaneamente. Acabei acumulando cerca de 30 anotações cheias de idéias que foram pontuadas ao longo dos últimos 2 anos. Algumas levei comigo, para onde fosse, mas ainda não sabia como abordar as letras até começar a compor com Twiggy.
Nos primeiros três meses de composição, meu papel se limitava ao papel de um fã, um espectador ou um chefe de torcida, se quiser: esta é a forma como eu defini o meu trabalho como produtor. Por outro foi Chris Vrenna (bateria, teclados, sons eletrônicos), o terceiro mensageiro especial: o trio criativo que deu forma a este disco.Às vezes Twiggy vinha com uma música terminada e pedia a minha opinião e, às vezes, eu tive uma idéia e dava orientações para Twiggy para desenvolve-la mais.
Não toco nem guitarra nem piano de maneira competente, tanto Chris como Twiggy são muito mais talentosos do que eu, mas eu sentia como se fôssemos enfiados numa máquina do tempo e que tínhamos voltado para os dias de Antichrist Superstar, fomos da mesma equipe de pessoas, incluindo Ginger que tocou bateria em ambos dos discos. No geral, não me canso de elogiar a forma como Twiggy tocou nesse álbum, porque foi ele quem me puxou para fora do bloqueio criativo em que eu me encontrava. É a primeira vez que eu posso dizer com certeza que Twiggy pôs a sua alma em um álbum e suas músicas são como as cartas que ele havia escrito. Suponho de que este salto qualitativo da sua música é devido ao fato de que enquanto estamos longe um do outro, ele desenvolveu sua habilidade como compositor em outros projetos. Eu disse suponho porque eu não sei a verdade e que não me importa. Eu estava feliz em ver como ele estava envolvido a fundo com o álbum.
Deve ser dito que o álbum começou escuro e preocupante, pois eu estava a ponto de me ver face a face com um dos meus maiores medos, sofri um bloqueio criativo. Por exemplo, o primeiro item no álbum, Devour, é sobre o que poderia ser um pacto “homicida-suícida”. Quando alguém diz a você: te amarei para sempre até o dia que eu morrer, se você prometer que vai estar comprometida a todos os níveis nesta relação e, de repente um dia rompe esse compromisso unilateralmente, talvez você tenha chegado ao ponto em que você quer dizer o “até que a morte nos separe”. Eu pessoalmente pensei em matar aquela pessoa e depois me matar. Este disco é paralelo à minha vida. A ordem e as faixas e em que aparecem no álbum é como um diário da minha vida. Volto a dizer que a maioria das letras surgiu espontaneamente. Simplesmente coloquei palavras nas melodias como foram ouvidas através dos auscultadores. Chris Vrenna foi responsável por gravar a minha voz e foi o único que pôde escutar de maneira natural todas as fraquezas, tosses e suspiros que saíram.
Quase todos os vocais gravados no disco são da primeira tomada, isso não quer dizer que foi um processo fácil ou que fizemos tudo sem pensar ou que tenha sido o resultado de improvisação pura e dura. Voltei a ouvir algumas horas atrás o álbum inteiro e cada vez tenho a impressão de que trata a história de Lúcifer, que uma vez caído em desgraça e jogado para fora do céu se esforça para entender sua própria busca para o entendimento e até mesmo para o amor. Trata-se da vontade de sacrificar até mesmo as suas próprias asas em busca de encontrar felicidade e terminar sua solidão. Eu de alguma maneira sacrifiquei minhas próprias asas, que simbolizam o fato de ser diferente, ou de ser um artista monstro, ou o monstro que a mídia quer converter apenas para ser amado por essa pessoa e depois eu perceber que, após cortar minhas asas e tornar-me uma pessoa normal e acessível, o meu sacrifício foi em vão. Sabe, às vezes as pessoas confundem minha bondade com fraqueza e não percebem o quão perigoso eu posso ser. Posso assegurá-lo que hoje em dia, e depois de ter aprendido com os erros do passado, não sou uma pessoa que possam vir a explorar.
Você parece ter uma atitude muito positiva sobre as coisas, por isso não há nenhum rastro da crise dos 40, certo?
Se a crise dos quarenta anos implica que eu só tenho mais 40 anos para viver, então deveria estar deprimido (risos).
Sabe quando você começa a pensar sobre sua própria mortalidade e qual é seu lugar no mundo e, em seguida, diz: “é tão jovem como quer” você começa a cobrar mais sentido e mais força. Quando eu fiz o álbum anterior “Eat Me Drink Me”, a metáfora central do disco foi o vampiro, refletia o meu desejo de me alimentar com a força vital de outras pessoas para que eu recompusesse-me de outra relação que eu tinha me desgastado muito. Neste caso ocorreu o contrário. Eu não me alimentei da energia de outros, e sim de meu próprio desejo de me redimir, para recuperar o que perdi e me vingar das pessoas que tentaram impedir-me de atingir esse objetivo. Quando o penúltimo álbum a lua, a escuridão e os vampiros existiam, foram agora substituídos pelo sol, luz e licantropos.
Existem faixas de amor no álbum?
É claro. Mas também depende do que você define como uma canção de amor.
O que acha de uma faixa acústica com letras sobre uma relação?
Bem, acho que todas as faixas do álbum falam de relacionamentos, tanto de Manson com o resto do mundo, como de Manson consigo mesmo. Uma faixa que reúne as características mais comuns de uma canção amorosa seria “Running to the Edge of the World”, é uma faixa muito triste, na verdade. Mas eu não posso associar um acústico com amor. Para mim um tema romântico pode ser “Pretty As A Swastika”.
Se você tiver algum tempo livre durante a sua passagem no Kobetasonik você vai visitar o Guggenheim?
Eu adoraria. Sabe um local que também gostaria de visitar é o local de nascimento de Salvador Dalí. Espero que, quando eu voltar com minha turnê depois do verão, eu possa visitar ambos dos lugares. Como sabe, tocando em uma festival não lhe permite realizar tudo o que você pode fazer quando você faz o seu próprio show, ou tocar tudo que você quiser, e por isso quero voltar a apresentar da maneira correta meu disco.