A vinda dele, que foi uma das grandes atrações do VMB, rendeu muito bafafá. Mesmo com sua recusa em dar entrevistas, conseguimos 10 apressados minutos. Mas o suficiente para percebermos que suas excentricidades não passam de estratégia. Ele se mostrou um cara gentil, articulado, que apenas se leva a sério demais.
Revista MTV: Você acabou de fazer dois shows no Brasil (Rio e São Paulo) Como foram para você?
Marilyn Manson: Eu gostei mais de São Paulo mais ambos foram ótimos. Eu nunca havia estado no Rio e a platéia foi muito boa. Eu estava nervoso antes de entrar no palco mais acabou tudo dando certo.
Revista MTV: Suas apresentações estão menos extremas com relação a última vez que você veio ao Brasil.
Marilyn Manson: É muito difícil olhar para o passado, eu não tenho razão para querer fazer o que fiz à dez anos atrás. Se as pessoas não gostam do que faço é a escolha delas, eu não me importo. E minha intenção não é fazer algo apenas para chocar ou provocar mas como um artista você tem de ser provocativo, precisa criar algum tipo de emoção, seja ódio, amor, raiva, apatia, empatia…. você tem de gerar algum tipo de sentimento e é isso que eu tento sempre fazer, e o que sempre fiz.
Revista MTV: Essas emoções que você provoca são premeditadas?
Marilyn Manson: Para mim arte é a única coisa que pode comparar à uma religião. Não acredito em nenhum dos dois conceitos de Deus que existem na religião mas acredito no conceito de Deus quando diz respeito a criação artística. Nunca foi uma questão de eu não acreditar em Deus, apenas não acredito no que a religião tenta fazer disso. Na minha opinião ser um artista é a coisa mais religiosa que se pode fazer.
Revista MTV: No sentido convencional onde você se situa religiosamente?
Marilyn Manson: Não sei se tenho um termo fácil para me definir. Sempre senti que tinha uma mente aberta o suficiente para tentar ouvir qualquer possibilidade. E nisso que se resumem a minha carreira e a minha vida, em tentar descobrir e entender o que é Deus. Agora vejo de uma maneira mais simples: arte é criar alguma coisa e, se você olhar a religião, ela trata essencialmente da criação. Políticos e a maioria dos religiosos tiram as coisas do mundo. Já os artistas colocam as coisas no mundo quer você goste ou não. Não vou dizer que todo mundo tem de concordar comigo mas essa é a minha religião e a minha política.
Revista MTV: Falando em criação, conte um pouco sobre a sua exposição inaugurada nesta tarde (27 de setembro).
Marilyn Manson: Algumas das pinturas nunca haviam sido vistas antes, nem eu as tinhas visto, pois estavam guardadas na minha casa e só hoje as vi emolduradas. Isso porque algumas delas eram bem antigas, então foi especial nesse sentido. Mas foi legal porque tanto pessoas que gostam da minha música e as pessoas que gostam da minha arte não são necessariamente as mesmas. São dois mundos distintos, mas há um cruzamento ente eles.
Revista MTV: Como você descreveria a sua arte?
Marilyn Manson: Para mim sempre foi estranho poder exibí-las. De repente, um monte de gente acabou comprando e levando minhas pinturas, o que foi muito difícil. Eu não queria me separar delas. Depois da minha primeira exposição, tive de lidar com isso e só superei quando me dei conta de que oficialmente, sou um pintor. Muito do que eu punha nas pinturas, no passado, eram coisas que não se conseguia embalar no formato de música.
Revista MTV: Eat Me, Drink Me é seu álbum mais introspectivo. Isso é um reflexo desse momento que você está vivendo?
Marilyn Manson: Foi um álbum que não achei que seria capaz de fazer. Eu o fiz simplesmente por necessidade; porque, na época, não sabia como falar com as pessoas que estavam na minha vida. Então fiz isso através da música. Quase fui um tolo o suficiente de pensar que poderia abandoná-la. Já quando consegui, vi como a música é o centro de quem eu sou, porque ela faz com que eu me sinta de maneiras diferentes.
Revista MTV: Nele você transita por algumas texturas diferentes dos seus álbuns anteriores?
Marilyn Manson: Sim. Antes de gravá-lo, me dei conta que ainda não havia feito um disco que me fizesse sentir como outros álbuns que eu gosto, como Purple Rain (de Prince and the Revolution) e Diamond Dogs (David Bowie). Eu não estava tentando fazer um álbum que tivesse algum propósito fora o de me fazer ultrapassar o que eu estava sentindo. As pessoas pensam: “Ah, é mais humano, é mais pessoal”. Mais para mim era essencial.
Revista MTV: Uma de suas características é associar o som a sua imagem, algo que ninguém tem feito atualmente. Como você se sente nesse contexto?
Marilyn Manson: Bom, houve muitas experiências diferentes para mim. Sempre escrevi música com imagens na cabeça, pois é a forma como eu penso. Acho que porque eu cresci diante da televisão. Mas, quando escrevi as letras para esse álbum, foi algo mais visual. Aprendi a escrever como se escreve um romance. Eu simplesmente queria dizer tudo que tinha para dizer.