KUNSTHALLE wien
Gerald Matt em conversa com Marilyn Manson 28.06.2010
Você é bem conhecido como músico e pelo o que eu sei, você começou a pintar muito cedo, em paralelo com sua carreira. O que liga o músico com o pintor, com o artista visual e onde você vê diferenças significantes?
Eu acho, quando eu olho para os álbum que fiz no passado, eles sempre estiveram em minha mente, como espécies de filmes ou histórias visuais. E eu tentei bastante liricamente… quando eu olho para minhas letras antigas, elas eram muito visuais, como você veria em um roteiro, como um roteiro de Alfred Hitchcock. Ele escreveu esses roteiros bastante visuais, o dialogo era muito “miminal”.
E quando eu comecei a pintar, eu meio que comecei a aprender a fazer música de forma diferente, de modo que se complementassem para mim pessoalmente como uma expressão. Eu acho que tentei separar os dois por algum tempo, porque eu queria ganhar respeito como artista, simplesmente como artista. Eu não queria que estivesse relacionado com as pessoas me associando como Marilyn Manson e acho que esta exposição representa para mim um ponto muito importante da minha arte. É muito importante para mim, é a exposição mais importante na minha carreira como artista.
Isso me inspira, porque estou fazendo um novo álbum e agora eu quero cruzar essas duas fronteiras, onde não são mais separadas e auto-consciente de mantê-las separadas. Eu estava muito auto-consciente de juntá-las, porque eu não quero que parecesse um hobby.

Para mim há uma assunto essencial que você está lidando, um tipo de tema que se baseia, de alguma forma, na história do mal. Há dor, medo e quando eu vi seu trabalho, eu tive o sentimento de que essa é uma parte significante da história do mal. Então, o que interessa a você esse aspecto de vida que é importante para todos nós.
Se você olhar para os contos e fadas, desenhos animados, histórias infantis, a Bíblia ou qualquer obra de ficção, para mim o vilão tem sido sempre o personagem mais atraente, com mais qualidades humanas, o personagem que eu poderia estar relacionado, bem mais fácil que o herói, que é quase inalcançável, irrealista e também muito hipócrita na maioria das histórias, e acho que é por isso que qualquer artista sempre vai definir o que o status quo definiria como negativo.
O negativo é sempre relativo à opinião. Bem e o mal são duas palavras que fazem parte do homem, se você não tiver ambas, então você não é uma alma completa.
Acho que as pessoas muitas vezes me confundem como sendo um nilista, porque eles pensam que eu não me importo com nada, ou como sendo ateu, porque eu não acredito em Deus. Eu acho que o que eu acredito é que Deus é sinônimo de arte, criação define o desejo da humanidade de encontrar a definição de Deus, elas usam a Bíblia comoreferência base de criação.
Um artista coloca coisas no mundo, criam coisas que as pessoas possam se identificar, algumas pessoas vão odiá-las, algumas pessoas vão amá-las, mas você está colocando algo no mundo. Ironicamente, você tem os políticos e líderes religiosos que tiram coisas do mundo e eles ficam por trás de caras que representam o livro que sugere o exato oposto.
É por isso que eu sempre me atei a ficar com raiva da hipocrisia na América, mas mudei minha opinião tanto quanto não é tão interessante ou efetivo como um artista simplesmente se queixar da hipocrisia tanto quanto eu considero positivo, mas algumas pessoas podem considerar como perverso, negativo, obscuro ou qualquer que seja a opinião, mas isso tudo é arte.

Esta bipolaridade entre o bem e o mal de uma forma obscura e luminosa; a moral e imoralidade se refletem também em seu nome Marilyn Manson. Marilyn Monroe é como o sonho, o sonho americano e Manson é o pesadelo. Então foi esse o motivo pela qual você conectou os dois nomes?
Esse é definitivamente o porque eu uni os dois, e também cresci na America onde pessoas referiam Marilyn Monroe simplesmente como “Marilyn” e Charles Manson como simplesmente “Manson”. Então tinha um monte de razões diferentes, era uma palavra mágica quando eu as colocavas juntas como “Abracadabra”.
Mas também acho que se torna bem estranho quando você fala sobre a bipolaridade disso, claro que esse é um termo psiquiátrico na América que provavelmente foi usado contra mim mais de uma vez.
Eu tenho uma opinião muito forte sobre a psiquiatria, até alguém me perguntou sobre isso mais cedo hoje. Psicologia é uma coisa; a compreensão da mente humana, mas acho que tentar diagnosticar a mente de um artista poderia destruir os princípios básicos, porque sem os Anjos e Demônios que existem na sua cabeça, você não pode ser um artista.
Há esse elemento que, como um artista, você sempre irá ser torturado – essencialmente é assim como as pessoas vêem. Mas eu vim para não ser torturado como um artista. Eu sinto que estou habituado a isso, e tento apenas criar os sentimentos bons mais do que os sentimentos ruins.
Contanto que você esteja criando arte, eu acho que isso acaba fazendo você se sentir bem. Quando você tem algum tipo de tortura em sua alma e você pode expressá-lá e botá-la pra fora é sempre algo que faz você se sentir melhor como pessoa. E quando você não pode – e houve momentos em que eu não pude fazer uma música ou eu não pude fazer uma pintura – essas são as vezes que me senti torturado. Quando as pessoas acham que estou sendo torturado, quando estou fazendo arte não me sinto torturado, me sinto muito satisfeito.

Essas duas últimas perguntas são relacionada à sua técnica, o uso da aquarela e também sua concentração nessa técnica. Vamos começar com o uso da aquarela… É a sua mídia favorita, você adora trabalhar com ela, por quê?
Foi a qual eu mais me identifiquei, acho que talvez tenha começado com ink, e gostava porque era bem preto e branco, mas senti que eu precisava adicionar cor. Para a maior parte eu gostei do jeito que molhava o papel. Eu pinto no chão sobre meus joelhos, eu não consigo pintar com a tela levantada porque escorre, no qual eu as deixo levantas depois pingando, apenas para um visual intencional.
Eu gosto de aquarelas, porque elas macham as coisas e são bem íntimas, sinto que há um relacionamento onde eu tenho que sentar e assistir a água secar, como se move e se derrama, eu também estou lutando com meus dois gatos que gostam de correr para dentro e para fora do quarto.
Há toda uma relação acontecendo e gosto de ficar bem quieto e pinto nas últimas horas antes do sol nascer, que é quando estou mais criativo.

Também dá uma impressão de disilusão, de algo vago, mais silencioso e mais sensitível a forma como você usa as aquarelas. Senti isso quando olhei para elas, é como se você olhasse de forma melancólica, mas tambem de uma forma romântica os temas.
Eu diria que é muito romântico, e esta é uma palavra que estranhamente se auto-define às vezes. Romântico pra mim é obscuro, é fatal e todas essas coisas. Muitas vezes eu gosto de usar uma grande paleta, que é minha favorita, é um kit da Alice no País das Maravilhas que é bastante antigo.
Tem um grande espectro e um monte de cores pastéis, que é muito incaracterístico do assunto que escolho. Gosto de, ao ínvés de usar o preto e branco para fazer sombras, usa cor nelas.
Eu não tenho uma explicação para minha técnica, tanto que não sei como ela surgiu. Eu vou pintar alguma coisa, paro em frente e tiro uma foto, para que eu possa ver a profundidade, e está é a minha única maneira de criar dimensão, porque quando você pinta sobre seu joelho, o formato que eu pinto, que é cerca de 3 metros de altura, é difícil dizer sobre perspectiva. Agora eu uso o meu iPhone, é mais fácil, mas eu tinha Polaroids até pararem de fabricá-las.

A última pergunta é sobre sua relação com David Lynch e o trabalho como mostras em seus vídeos antigos e suas aquarelas. O que é fascinante quando você olha para David Lynch? Acho que você já atuou em um filme de sua…
Sim, A Estrada Perdida.
A Estrada Perdida, mas se olhar para ele artisticamente?
Bem, ele sempre tem sido artístico, indiferente dele como um emposse, um pintor, ou alguém que coloca sua arte em algum lugar diferente de um filme. Como um cineasta eu tenho visto ele como uma grande inspiração. Veludo Azul foi o primeiro filme que eu me liguei emocionalmente.
Eu acho que foi, além da palheta de cor, o uso da velocidade do filme e a combinação de sexualidade e violência, som, e os close-ups, o modo cinematografia é simplesmente brilhante. Quando cheguei a conhecê-lo, ele se pareceu um cara muito incomum, quer dizer… ele diria a mesma coisa sobre mim, tenho certeza.
Sim, ele disse. Então você está feliz com a mostra e a combinação?
Não poderia ser um elogio maior estar ao lado de alguém tão inspirador para mim com ele. Acho que ele é indefinível como artista. Ele é mais visível como diretor, mas ele é indefinível, sinto que ele pode fazer qualquer coisa. Quando eu fui pela primeira vez em sua casa, ele tinha um tipo de carcaça pregada em uma porta gigante, ele estava no processo de criação e mostrou para mim.
Eu fiquei impressionado com toda a experiência, as moscas, o vinho que estávamos bebendo na mesa de sua cozinha. Era como estar no meio de um estranho filme sobre o centro-oeste, e estávamos sentados lá bebendo vinho, sem ar condicionado, estava bem quente e havia moscas voando em volta da carcaça.
Pensei: “Isso é lindo David Lynch, isso é lindo!”
Acho que as pessoas que vierem a mostra também ficarão impressionadas quando virem você. Muito Obrigado!
Obrigado.